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Médica em Construção

Estágio em Medicina Geral e Familiar e alguns detalhes

Se me seguem há algum tempo sabem que tinha planeado para este verão um estágio de duas semanas num Centro de Saúde. Fí-lo por dois motivos: em primeiro lugar, não posso estar muito tempo parada; depois, tinha vontade de experimentar algo diferente e conhecer o primeiro degrau da saúde. Sim, porque o Hospital é um mundo completamente diferente. 

Não, não vi as situações extremas que encontro nas enfermarias. Mas saí com uma certeza: num centro de saúde, faz-se de tudo, e percebe-se de tudo. Há que entender de pediatria, psiquiatria, até pequena cirurgia! Há que lidar com doentes complicados, polimedicados, da gravidez ao final de vida. É uma especialidade que requer um grande amor e empatia pelo próximo. 

Sim, porque um médico de família é um médico especializado! Penso que existe a ideia que é um médico de clínica geral, mas não! São necessários 4 anos de estudo, após terminar a faculdade e o Ano de Formação Geral, onde se passa por diversos estágios, nomeadamente de Saúde Infantil, da Mulher, Psiquiatria, e Cuidados em situações de urgência e emergência. 

Vocês questionam-se: porque é que é necessário saber isto? Porque recentemente foi falado da incorporação dos médicos indiferenciados, ou seja, sem especialidade, nos centros de saúde. Estes poderiam ter a seu cargo uma lista de 1900 pessoas. Da mesma forma que não se considera que um médico indiferenciado tem a capacidade para fazer o trabalho de um cirurgião, não deveria sequer ser sugerido que este pudesse substituir um médico de família. É um desrespeito, e é um perigo para a saúde dos doentes, tendo em conta que estes não têm a formação necessária para os servir da melhor forma.

Há falta de médicos de família, mas isto não é de todo uma solução.

O que vocês acham sobre isto?

 

Já sou meia médica (e licenciada!)

É altura de virar a página e respirar de alívio. Este ano foi desafiante de várias formas: pela sua dificuldade; pelos problemas pessoais com os quais tive que lidar; pela necessidade de priorizar a saúde mental e colocar as notas e o curso em segundo lugar. Tive os meus primeiros chumbos, os meus primeiros recursos, e não foi nada fácil! Houve momentos em que pensei que talvez este curso não fosse para mim, em que cogitei desistir. É muito frustrante saber que não pude dar todo o meu potencial, especialmente num ano já tão complicado, mas nada acontece por acaso, e aprendi várias lições! Posso afirmar que não sou a mesma pessoa que era setembro. 

Apesar disto, vivi momentos fantásticos, ao lado de pessoas que amo e que tornam a vida muito mais bonita. O apoio das minhas amigas, do meu namorado, da minha família, foi essencial! Este ano decidi arriscar mais, experimentar mais, viver a vida com mais intensidade e com menos receios.

Aprendi que devemos ser a nossa maior prioridade. Que uma nota não define aquilo que somos. Que a vida dá voltas, e que um mau momento não nos define. Que o que levamos connosco são as experiências e as pessoas! Que não há nada de errado em pedir ajuda. Que por vezes temos de parar e refletir, por muito que isso afete outros campos da nossa vida. Que tudo se resolve, de uma maneira ou outra.

Já só falta outra metade! 

- De uma meia médica

Época de exames e as saudades do hospital

Estes dias têm sido passados em casa, na companhia dos resumos, dos powerpoints, e de uma playlist no Spotify que toca repetidamente na televisão da sala. Falta inspiração para escrever. 

Sinto falta do hospital. Da movimentação dos corredores, da bata que me fica grande, e do estetoscópio que teima em escorregar do meu pescoço inexperiente. É lá que me sinto bem, que me sinto com propósito. 

A única motivação que me guia nesta época de exames é saber que um estágio de verão me espera, assim como um próximo ano letivo em que todas as aulas se passam no Hospital. Não poderia pedir melhor.

Se vos interessa acompanhar a minha experiência no estágio, sigam-me no instagram: lá falarei mais sobre o assunto quando a época chegar :)

 

Vocês são lindas como os amores

Disse a senhora de cabelos brancos, com um sorriso de admiração no olhar.

E agarrava com carinho as nossas mãos, acariciava o nosso rosto. Falava como uma criança, e acredito que, em sua consciência, se considerasse uma.

Afirmou espalhar alegria na enfermaria, e não desconfiei, considerando que todos os profissionais de saúde que por ela passavam lhe atiravam beijos e palavras de amor.

Talvez nem tivesse consciência da doença. Mas que importa? Irradiava empatia, carinho, e a energia de quem espalhou afeto durante toda a sua vida. Num mundo de tristezas e tragédias, de desrespeitos e inimizades, é refrescante.

É a beleza do hospital. Conhecemos tantas personalidades, e em todas encontramos algo para admirar.

O senhor da cama quatro

Era como o meu avô.

Tinha um cuidado especial com as palavras, e uma atenção ao detalhe excecional ao contar histórias.

Falou-nos do carbúnculo, da sua aldeia, e da vida que levou. Procurava em nós uns ouvidos dispostos a escutar os tramas, as suas paixões, e a forma poética como sempre encarou a vida.

“A vida tem destes romances” dizia ele. E foi aí que descobri a alma de artista que nem o tempo nem a doença conseguiram escurecer ou apagar.

E é isto que amo naquilo que faço. Não só conhecer as doenças, mas principalmente conhecer as pessoas. As pessoas que não deixam de ser pessoas por se encontrarem numa enfermaria, e que não se deixam condenar por uma doença.

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