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Médica em Construção

Estudar em cadáveres

Numa tábua fria, jazem as peças do corpo de alguém que já foi e não é mais. Não têm nome, mas algumas têm rosto. E é muito difícil olhar e não imaginar a pessoa que está por detrás daquela doação. Seria filho, pai de alguém. Alguém com sonhos. Alguém que tão casualmente poderia encontrar numa paragem de autocarro ou café. 

Não foi apenas lidar com a realidade do corpo humano que tanto me perturbou, mas sim ser tão brutalmente confrontada com a morte. No começo, era incapaz de criar um distanciamento com as peças, e isto porque não as encarava com peças de estudo, mas sim partes do corpo de alguém que morreu, alguém como eu.

Lembro-me na perfeição de como me senti na primeira vez que vi um cadáver; o espanto, o medo, a súbita incerteza relativamente ao meu futuro em medicina. Se eu não conseguia lidar com tudo aquilo, como seria capaz de ser médica? Tive a sorte, e por isso estou agradecida, de ter colegas que me reconfortaram e ensinaram não só a aceitar como a desvalorizar toda aquela experiência. Eu não irei cuidar de mortos, mas sim de vivos. E todos aqueles que no museu de Anatomia estão queriam que eu estudasse neles.

Com o passar do tempo, o frio e o cheiro a formol tornaram-se rotina. As peças já não assustavam: eram ferramentas essenciais para a minha aprendizagem. E o que anteriormente me causava tanta incerteza passou a ser uma motivação para o futuro.

E vocês? Já lidaram com algo semelhante?

Como pensam que reagiriam?

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