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Médica em Construção

Viver num mundo com germes

Não é a primeira vez que menciono aqui o meu problema e a minha ansiedade relativamente às doenças. É até irónico para uma futura médica, mas a realidade é que um dos meus grandes medos são as infeções.

Não se enganem, esta minha pequena obsessão já existia antes da covid, mas tudo agravou severamente com o surgimento de uma pandemia. De repente, fiquei hiperconsciente de todos os lugares onde toquei com o medo de, por azar, levar uma partícula de vírus para casa e infetar toda a gente. Se toco numa maçaneta, já não toco no telemóvel sem antes desinfetar as mãos porque este iria ficar infetado, e depois em casa ia usar o telemóvel e contaminar todas as superfícies com o bicho. Se toquei nos sapatos ao calçar-me tenho de desinfetar as mãos porque sabe-se lá onde andei e o que pode estar lá. Penso que esta situação nos tornou a todos mais preocupados com coisas que antes nem pensávamos! Parece impensável entrar num Hospital sem máscara mas, antes de toda esta confusão, era difícil encontrar alguém com uma.

Como fui ensinada pela vida, tudo tem um lado positivo, e se recear infeções é algo causador de ansiedade na minha área, é igualmente protetor. Ainda este ano tive aulas de microbiologia, onde aprendi relativamente a dezenas de microrganismos causadores de doença. Na verdade, o uso irracional dos antibióticos causou um aumento brutal do número de microrganismos resistentes: há até alas no hospital reservadas a doentes com estas infeções. Ter esta consciência leva-me a ter mais cuidado, não só comigo como também com os pacientes com quem lido. É fundamental desinfetar sempre as mãos antes e depois de realizar algum exame, já para não falar da desinfeção do estetoscópio! Há várias outras regras de higiene que devem ser cumpridas: permanecer sempre com as unhas curtas, sem verniz, apertar a bata, entre outras!

E vocês? São germofóbicos? Quais são as medidas que tomam para prevenirem as infeções?

O problema do Dr. Google - cibercondria

É fantástico termos informação na ponta dos nossos dedos. Com apenas um clique, acedemos a milhares de websites que nos ajudam a ser pessoas mais informadas, algo que no passado era impensável. E isto aplica-se a tudo: notícias, ciência, política, e também saúde.

Não me interpretem mal, é muito vantajoso! Há a partilha e o incentivo de comportamentos saudáveis, dos benefícios e malefícios de certos alimentos, medicações, e entre muitas mais coisas. É um universo!

O problema começa quando se utiliza a internet para avaliar sintomas e fazer autodiagnósticos. Todos nós, em algum momento da nossa vida, pesquisamos algum sintoma (como uma simples dor de cabeça), e ficamos aterrorizados com os possíveis diagnósticos que o Dr. Google propõe. É um meningite, um abcesso cerebral, um tumor! Este é um comportamento que induz ansiedade e que, muitas vezes, se torna compulsivo.

Assim, foi definido o termo cibercondria: trata-se de uma pesquisa repetida sobre assuntos relacionados com a saúde que estão associados a um aumento da hipocondria (preocupação geral relativamente às doenças). Apesar da ansiedade e perturbação que estas pesquisas trazem, o indivíduo continua compulsivamente a fazê-las. Isto é especialmente relevante em indivíduos que já apresentem um quadro de hipocondria.

Além disto, é já muito comentado pelos médicos que muitos pacientes chegam à consulta com o diagnóstico feito, procurando apenas a medicação ou exames.

É importante relembrar que apenas um médico pode fazer um diagnóstico - o google, por muita informação relevante que nos dê, não substitui todos os anos de estudo de um profissional de saúde. É necessário ter pensamento crítico, experiência e exames de diagnóstico, algo que um site na internet não nos consegue oferecer. É de acrescentar que estes indivíduos acabam muitas vezes em sites pouco fidedignos, que até lhes sugerem curas e tratamentos falsos e enganadores.

O que pensam relativamente a este tópico?

Costumam pesquisar os vossos sintomas na internet?

Primeiro doente

Ninguém esquece o primeiro paciente. Talvez o nome nos fuja da memória, e talvez o diagnóstico e os sintomas sejam já uma névoa na nossa mente, mas há pequenos detalhes que não nos escapam.

Relembro o receio que senti nesse dia. Receava descobrir que Medicina não era para mim, ou de simplesmente bloquear e ser incapaz de falar com a senhora à minha frente. Relembro ainda o olhar triste e ansioso da doente, que entre respirações ofegantes colaborava com tanta atenciosidade. Fui incapaz de não me imaginar na sua posição: sozinha, nas urgências, com um diagnóstico difícil e um desconforto sem tréguas.

Apesar de tudo, sinto que evolui muito desde essa colheita. Há mais experiência, técnicas, empatia. Infelizmente, todos os doentes com quem contactei eram doentes oncológicos, o que tornou a minha reação a esse diagnóstico menos abrupta. Além disso, exame físico já não me deixa tão insegura, e as perguntas sensíveis são já parte da rotina.

Ainda mais importante, todo este contacto com os doentes fez-me ter a certeza que é realmente isto que quero fazer para o resto da minha vida.

Estudar em cadáveres

Numa tábua fria, jazem as peças do corpo de alguém que já foi e não é mais. Não têm nome, mas algumas têm rosto. E é muito difícil olhar e não imaginar a pessoa que está por detrás daquela doação. Seria filho, pai de alguém. Alguém com sonhos. Alguém que tão casualmente poderia encontrar numa paragem de autocarro ou café. 

Não foi apenas lidar com a realidade do corpo humano que tanto me perturbou, mas sim ser tão brutalmente confrontada com a morte. No começo, era incapaz de criar um distanciamento com as peças, e isto porque não as encarava com peças de estudo, mas sim partes do corpo de alguém que morreu, alguém como eu.

Lembro-me na perfeição de como me senti na primeira vez que vi um cadáver; o espanto, o medo, a súbita incerteza relativamente ao meu futuro em medicina. Se eu não conseguia lidar com tudo aquilo, como seria capaz de ser médica? Tive a sorte, e por isso estou agradecida, de ter colegas que me reconfortaram e ensinaram não só a aceitar como a desvalorizar toda aquela experiência. Eu não irei cuidar de mortos, mas sim de vivos. E todos aqueles que no museu de Anatomia estão queriam que eu estudasse neles.

Com o passar do tempo, o frio e o cheiro a formol tornaram-se rotina. As peças já não assustavam: eram ferramentas essenciais para a minha aprendizagem. E o que anteriormente me causava tanta incerteza passou a ser uma motivação para o futuro.

E vocês? Já lidaram com algo semelhante?

Como pensam que reagiriam?

Urgências respiratórias e solidão

Não me é desconhecida a posição de doente no hospital. Foram inúmeras as vezes, desde muito cedo, que permaneci naquele edifício enfraquecida pela doença. Apesar de tudo, não pensei que entraria tão cedo num espaço onde, há tão pouco tempo, havia entrado como aprendiz.

Comecei a semana com alguns sintomas respiratórios. Nada muito severo, mas o suficiente para me deixar em casa e com indicação de um PCR. Covid, nem vê-lo. Apesar de todos os cuidados, o meu quadro piorava, e por prevenção decidi fazer uma visita às urgências. Não esperei muito até ser encaminhada da triagem para as Urgências Respiratórias, onde permaneci o resto da estadia.

Como já mencionei, não era a primeira vez que lá entrava; já havia colhido histórias de pacientes naquele local. Sabia que era um local que impunha respeito, que nos relembrava da efemeridade e fragilidade da vida. No entanto, entrar como paciente traz uma carga emocional completamente distinta. Era eu que estava doente, vulnerável, na mão de desconhecidos. Apesar de conhecer a casa, os procedimentos, e os possíveis tratamentos, encontrava-me bastante assustada; levou-me apenas a imaginar o sentimento daqueles que não tinham tal vantagem.

Passaram-se horas e horas, e permanecia sentada num cadeirão, à espera dos resultados das análises que nunca mais chegavam. E a falta de companhia era dolorosa. Já sentia o impulso de me erguer e colher histórias aos meus vizinhos, nem que fosse apenas para me distrair.

No final foi me prescrito um antibiótico pela doutora que, sempre com tato e simpatia, me acompanhou e me explicou cada passo do processo.

Acho que retirei bastante desta experiência. Ensinou-me o que é estar sozinha num internamento, e ensinou-me da fragilidade que tal causa. Uma doença aguda, por muito leve que seja, representa um corte súbito na continuidade da nossa vida, e queremos apenas que alguém nos garanta que tudo voltará ao normal.

O primeiro contacto com doentes

Há várias razões pelas quais se escolhe o curso de medicina, da mesma forma que há várias saídas profissionais: nem todos temos de terminar o curso e enveredar por uma via clínica. Mas a razão principal pela qual decidi escolher este caminho foi o meu amor e o meu interesse por pessoas. Aliás, tinha tanta certeza desse meu interesse que entrei na faculdade com a ideia de escolher no final a especialidade de Psiquiatria. Assim, devem entender o meu entusiasmo quando descobri que este ano iriamos finalmente lidar com pacientes: íamos deixar as salas de aulas e trocá-las por enfermarias.

É claro que no começo tive algum receio. No fundo, estava a ser avaliada, e todo o meu discurso se tinha de limitar às perguntas escritas no guião. Porém, rapidamente aprendemos a ter alguma autonomia, e a humanizar a entrevista clínica para deixar o paciente o mais confortável possível.

Já me deparei com pacientes mais e menos colaborantes, mas em todos encontrei uma necessidade de escapar da realidade da sua doença. Todos adoram falar da sua juventude, dos filhos, dos netos, dos vários trabalhos que durante a sua vida desempenharam. E é bom saber que, durante um momento, somos uma companhia que os distrai da solidão da sua cama. 

Se por vezes me questiono se todo este esforço vale a pena, é nos corredores do hospital que encontro motivação para continuar.

Praxe: devo ir?

Creio que as praxes serão sempre um assunto controverso da vida universitária. Cada um tem o seu ponto de vista, e enquanto alguns acreditam que não passam de momentos de humilhação, outros afirmam ser uma forma de inclusão dos novos estudantes. Ignorando os exageros de alguns casos mediáticos, vou expor a minha opinião sobre o assunto.

Talvez digam que não tenho lugar de fala por nunca ter participado. Apesar de ser verdade, não estou completamente alheia ao assunto, e ouvi vários relatos de colegas que tanto me fizeram sentir agradecida pela minha decisão como arrependida.

Devo mencionar que, quando entrei na Faculdade, estava muito recetiva à ideia. É uma experiência que se vive apenas uma vez, e não queria deixá-la de parte. Porém, logo no primeiro dia de aulas, rapidamente mudei de opinião quando me foi pedido para faltar a uma aula. Talvez se fosse hoje, fá-lo-ia. Naquela altura, recém-chegada, não sabia ainda o que era ou não apropriado, e deixei a experiência de lado. A verdade é que a maioria das pessoas na minha faculdade são contra a praxe e, por isso, não posso dizer que me senti excluída ou pressionada devido à minha decisão: existem vários outros grupos onde é possível conhecer os novos colegas e fazer amizades.

Posso dizer que ouvi de tudo. Ouvi colegas que se queixaram e desistiram na primeira semana, como outros que amaram e permaneceram até hoje. Estes últimos sempre mencionam que formaram amizades muito fortes, e que a sua vida universitária teria sido completamente diferente sem a experiência.

Acho que o que podemos concluir é que não há uma resposta certa ou errada. Tudo depende da faculdade, das pessoas com quem nos cruzamos e, acima de tudo, de nós próprios. Não tenham medo da vossa decisão, seja esta participar ou não, porque a universidade é muito mais que as suas tradições.

 

Síndrome do estudante de medicina

Vocês já ouviram falar da síndrome do estudante de medicina? Esta afeta estudantes de medicina pouco experientes, que desenvolvem um medo patológico de contrair as doenças que estudam. São mais comuns em estudantes que já tenham alguma predisposição para ansiedade e medos irracionais, mas podem afetar qualquer um.

Este quadro pode-se manifestar como nosofobia ou hipocondria. Nosofobia é o medo irracional de ter uma doença específica, mesmo sem sintomas que sugiram a sua presença. Já na hipocondria há uma má interpretação de sinais corporais, que leva o doente a acreditar que simples sintomas indicam que sofre de uma doença grave.

O grande problema é o conhecimento: conhecer os sintomas, as consequências, o prognóstico. Conhecer a doença ao pormenor dá-lhe vida. Não é necessário pesquisar no Doutor Google para recear, mas sim apenas assistir a aulas ou até estudar para um exame.

E é claro que eu não podia ser a exceção.

Demoraria horas se descrevesse neste post todos os medos e todas as doenças que pensei e receei ter. Acho que os detalhes não são realmente o importante, mas sim o impacto destes medos na minha vida, que se transformaram em noites mal dormidas, ataques de ansiedade e várias idas ao médico e às urgências. O mais frustrante é saber que tudo é irracional e ilógico, mas, mesmo assim, não conseguir afastar o sentimento persistente de que havia algo de errado. Enfim, é um ciclo difícil de quebrar, que inevitavelmente afetou a minha felicidade e o meu rendimento escolar.

Não obstante, não posso dizer que esta experiência foi apenas negativa. É sempre possível retirar lições e aprendizados mesmo das situações mais incómodas. Por um lado, sinto que me compreendo melhor, principalmente devido ao acompanhamento que tive para superar este percalço. Isto ensinou-me a desvalorizar outras situações que no passado me causavam tanta ansiedade e medo e que, agora, me parecem insignificantes (claro, pensar que temos várias doenças mortais durante meio ano afeta a forma como vemos o mundo!). Por outro lado, sinto também mais empatia para com os doentes com que me cruzo, pois entendo não só a doença mas também as implicações que esta tem nas suas vidas.

E vocês, já tiveram algum medo irracional?

Beijinhos e até ao próximo post!

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