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Médica em Construção

Primeiro doente

Ninguém esquece o primeiro paciente. Talvez o nome nos fuja da memória, e talvez o diagnóstico e os sintomas sejam já uma névoa na nossa mente, mas há pequenos detalhes que não nos escapam.

Relembro o receio que senti nesse dia. Receava descobrir que Medicina não era para mim, ou de simplesmente bloquear e ser incapaz de falar com a senhora à minha frente. Relembro ainda o olhar triste e ansioso da doente, que entre respirações ofegantes colaborava com tanta atenciosidade. Fui incapaz de não me imaginar na sua posição: sozinha, nas urgências, com um diagnóstico difícil e um desconforto sem tréguas.

Apesar de tudo, sinto que evolui muito desde essa colheita. Há mais experiência, técnicas, empatia. Infelizmente, todos os doentes com quem contactei eram doentes oncológicos, o que tornou a minha reação a esse diagnóstico menos abrupta. Além disso, exame físico já não me deixa tão insegura, e as perguntas sensíveis são já parte da rotina.

Ainda mais importante, todo este contacto com os doentes fez-me ter a certeza que é realmente isto que quero fazer para o resto da minha vida.

Estudar em cadáveres

Numa tábua fria, jazem as peças do corpo de alguém que já foi e não é mais. Não têm nome, mas algumas têm rosto. E é muito difícil olhar e não imaginar a pessoa que está por detrás daquela doação. Seria filho, pai de alguém. Alguém com sonhos. Alguém que tão casualmente poderia encontrar numa paragem de autocarro ou café. 

Não foi apenas lidar com a realidade do corpo humano que tanto me perturbou, mas sim ser tão brutalmente confrontada com a morte. No começo, era incapaz de criar um distanciamento com as peças, e isto porque não as encarava com peças de estudo, mas sim partes do corpo de alguém que morreu, alguém como eu.

Lembro-me na perfeição de como me senti na primeira vez que vi um cadáver; o espanto, o medo, a súbita incerteza relativamente ao meu futuro em medicina. Se eu não conseguia lidar com tudo aquilo, como seria capaz de ser médica? Tive a sorte, e por isso estou agradecida, de ter colegas que me reconfortaram e ensinaram não só a aceitar como a desvalorizar toda aquela experiência. Eu não irei cuidar de mortos, mas sim de vivos. E todos aqueles que no museu de Anatomia estão queriam que eu estudasse neles.

Com o passar do tempo, o frio e o cheiro a formol tornaram-se rotina. As peças já não assustavam: eram ferramentas essenciais para a minha aprendizagem. E o que anteriormente me causava tanta incerteza passou a ser uma motivação para o futuro.

E vocês? Já lidaram com algo semelhante?

Como pensam que reagiriam?

Urgências respiratórias e solidão

Não me é desconhecida a posição de doente no hospital. Foram inúmeras as vezes, desde muito cedo, que permaneci naquele edifício enfraquecida pela doença. Apesar de tudo, não pensei que entraria tão cedo num espaço onde, há tão pouco tempo, havia entrado como aprendiz.

Comecei a semana com alguns sintomas respiratórios. Nada muito severo, mas o suficiente para me deixar em casa e com indicação de um PCR. Covid, nem vê-lo. Apesar de todos os cuidados, o meu quadro piorava, e por prevenção decidi fazer uma visita às urgências. Não esperei muito até ser encaminhada da triagem para as Urgências Respiratórias, onde permaneci o resto da estadia.

Como já mencionei, não era a primeira vez que lá entrava; já havia colhido histórias de pacientes naquele local. Sabia que era um local que impunha respeito, que nos relembrava da efemeridade e fragilidade da vida. No entanto, entrar como paciente traz uma carga emocional completamente distinta. Era eu que estava doente, vulnerável, na mão de desconhecidos. Apesar de conhecer a casa, os procedimentos, e os possíveis tratamentos, encontrava-me bastante assustada; levou-me apenas a imaginar o sentimento daqueles que não tinham tal vantagem.

Passaram-se horas e horas, e permanecia sentada num cadeirão, à espera dos resultados das análises que nunca mais chegavam. E a falta de companhia era dolorosa. Já sentia o impulso de me erguer e colher histórias aos meus vizinhos, nem que fosse apenas para me distrair.

No final foi me prescrito um antibiótico pela doutora que, sempre com tato e simpatia, me acompanhou e me explicou cada passo do processo.

Acho que retirei bastante desta experiência. Ensinou-me o que é estar sozinha num internamento, e ensinou-me da fragilidade que tal causa. Uma doença aguda, por muito leve que seja, representa um corte súbito na continuidade da nossa vida, e queremos apenas que alguém nos garanta que tudo voltará ao normal.

O primeiro contacto com doentes

Há várias razões pelas quais se escolhe o curso de medicina, da mesma forma que há várias saídas profissionais: nem todos temos de terminar o curso e enveredar por uma via clínica. Mas a razão principal pela qual decidi escolher este caminho foi o meu amor e o meu interesse por pessoas. Aliás, tinha tanta certeza desse meu interesse que entrei na faculdade com a ideia de escolher no final a especialidade de Psiquiatria. Assim, devem entender o meu entusiasmo quando descobri que este ano iriamos finalmente lidar com pacientes: íamos deixar as salas de aulas e trocá-las por enfermarias.

É claro que no começo tive algum receio. No fundo, estava a ser avaliada, e todo o meu discurso se tinha de limitar às perguntas escritas no guião. Porém, rapidamente aprendemos a ter alguma autonomia, e a humanizar a entrevista clínica para deixar o paciente o mais confortável possível.

Já me deparei com pacientes mais e menos colaborantes, mas em todos encontrei uma necessidade de escapar da realidade da sua doença. Todos adoram falar da sua juventude, dos filhos, dos netos, dos vários trabalhos que durante a sua vida desempenharam. E é bom saber que, durante um momento, somos uma companhia que os distrai da solidão da sua cama. 

Se por vezes me questiono se todo este esforço vale a pena, é nos corredores do hospital que encontro motivação para continuar.

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