Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Médica em Construção

A alegria das colocações na Universidade

Uma das coisas que mais adoro é ver as colocações na Universidade. Relembra-me daquele sábado à noite, em que, sentada no chão da casa-de-banho, descobri que entrei em Medicina. 

Não vou mentir e dizer que não estava à espera, e que foi uma grande surpresa. Apesar de tudo, senti um alivio sabem? Senti que, finalmente, aqueles 3 anos de esforço, de estudo, de perseverança, tinham compensado. Senti que finalmente ia deixar para trás aqueles 3 anos conturbados de secundário. Houve muitas alturas em que pensei desistir, em que pensei não ser capaz. Houve momentos em que até da minha saúde abdiquei. Foi um dos períodos mais complicados da minha vida.

Então, receber aquele email foi como uma luz de esperança. Foi como uma confirmação de que todo o esforço é recompensado. Foi uma porta que se abriu e me indicou o caminho para o meu sonho. 

E assim iniciou-se uma fase completamente nova da minha vida, com altos e baixos, mas que não deixa de ser algo pelo qual sempre sonhei. 

As férias a acabar e a juventude também

Okay, talvez este título seja um pouco dramático. Mas a rapidez com que estas férias passaram levou-me a refletir um pouco sobre o meu privilégio de ser estudante!

Desde sempre que tenho férias de quase 3 meses. É tão normal que nunca me tinha apercebido do seu fim iminente. Sabem quantos verões tenho? Dois! E um deles vai ser passado a estudar para a prova de acesso à especialidade. Portanto, tenho um verão até me converter às assustadoras férias de 22 dias. 

E sabem quem me levou a perceber isto? O meu namorado, que já trabalha! Comecei a imaginar-me no lugar dele, e rapidamente me apercebi que não tarda muito e já não preciso de imaginar.

Por isso, crianças, aproveitem muito bem as vossas férias de verão; por muito que pareçam enormes e eternas, não são!

Estágio em Medicina Geral e Familiar e alguns detalhes

Se me seguem há algum tempo sabem que tinha planeado para este verão um estágio de duas semanas num Centro de Saúde. Fí-lo por dois motivos: em primeiro lugar, não posso estar muito tempo parada; depois, tinha vontade de experimentar algo diferente e conhecer o primeiro degrau da saúde. Sim, porque o Hospital é um mundo completamente diferente. 

Não, não vi as situações extremas que encontro nas enfermarias. Mas saí com uma certeza: num centro de saúde, faz-se de tudo, e percebe-se de tudo. Há que entender de pediatria, psiquiatria, até pequena cirurgia! Há que lidar com doentes complicados, polimedicados, da gravidez ao final de vida. É uma especialidade que requer um grande amor e empatia pelo próximo. 

Sim, porque um médico de família é um médico especializado! Penso que existe a ideia que é um médico de clínica geral, mas não! São necessários 4 anos de estudo, após terminar a faculdade e o Ano de Formação Geral, onde se passa por diversos estágios, nomeadamente de Saúde Infantil, da Mulher, Psiquiatria, e Cuidados em situações de urgência e emergência. 

Vocês questionam-se: porque é que é necessário saber isto? Porque recentemente foi falado da incorporação dos médicos indiferenciados, ou seja, sem especialidade, nos centros de saúde. Estes poderiam ter a seu cargo uma lista de 1900 pessoas. Da mesma forma que não se considera que um médico indiferenciado tem a capacidade para fazer o trabalho de um cirurgião, não deveria sequer ser sugerido que este pudesse substituir um médico de família. É um desrespeito, e é um perigo para a saúde dos doentes, tendo em conta que estes não têm a formação necessária para os servir da melhor forma.

Há falta de médicos de família, mas isto não é de todo uma solução.

O que vocês acham sobre isto?

 

Já sou meia médica (e licenciada!)

É altura de virar a página e respirar de alívio. Este ano foi desafiante de várias formas: pela sua dificuldade; pelos problemas pessoais com os quais tive que lidar; pela necessidade de priorizar a saúde mental e colocar as notas e o curso em segundo lugar. Tive os meus primeiros chumbos, os meus primeiros recursos, e não foi nada fácil! Houve momentos em que pensei que talvez este curso não fosse para mim, em que cogitei desistir. É muito frustrante saber que não pude dar todo o meu potencial, especialmente num ano já tão complicado, mas nada acontece por acaso, e aprendi várias lições! Posso afirmar que não sou a mesma pessoa que era setembro. 

Apesar disto, vivi momentos fantásticos, ao lado de pessoas que amo e que tornam a vida muito mais bonita. O apoio das minhas amigas, do meu namorado, da minha família, foi essencial! Este ano decidi arriscar mais, experimentar mais, viver a vida com mais intensidade e com menos receios.

Aprendi que devemos ser a nossa maior prioridade. Que uma nota não define aquilo que somos. Que a vida dá voltas, e que um mau momento não nos define. Que o que levamos connosco são as experiências e as pessoas! Que não há nada de errado em pedir ajuda. Que por vezes temos de parar e refletir, por muito que isso afete outros campos da nossa vida. Que tudo se resolve, de uma maneira ou outra.

Já só falta outra metade! 

- De uma meia médica

Primeiro chora-se, depois aceita-se

Talvez pareça inacreditável, mas foi nesta época de exames que chumbei pela primeira vez a uma cadeira. Por duas décimas. Como não ficar frustrada?

Primeiro chorei. E chorei bastante! Parecia que o mundo tinha acabado, ou que estava para acabar. Sentia-me subitamente desmotivada com o curso, e deixei o cansaço de todo o ano falar mais alto. De repente a minha organização do estudo teria de mudar completamente, para ter tempo de estudar para o recurso. Teria de voltar a rever as centenas de páginas de conteúdo; memorizar novamente todos aqueles fármacos, com nomes incrivelmente parecidos. Teria de assumir que tinha falhado pela primeira vez, e para alguém que dá dicas de como ter boas notas no Instagram, foi algo até irónico!

Permitir-me sentir todas estas emoções foi libertador. É normal sentir tristeza, frustração, desmotivação, e não devemos reprimir estes sentimentos! Depois de passar pelas 5 fases do luto em 2 horas, arregacei as mangas e segui em frente. Tinha um recurso para provar o meu valor. Não era a primeira pessoa a chumbar a farmacologia, nem seria a última! 

A vida tem destes desafios. Mas deverá um pequeno contratempo nos deitar a baixo? Nunca!

Nem tudo mau é realmente mau

Queria fazer um texto bonito sobre o quão difícil a vida pode ser, e sobre aquilo que podemos aprender com as adversidades, mas não consegui. Escrevi, apaguei, voltei a escrever, voltei a apagar. Não há nada de bonito no sofrimento. Nem tem de haver. 

Este último ano foi o transbordar de um copo cheio: cheio de traumas, medos, crenças infundadas, inseguranças. E quando o copo transborda, não podemos culpar apenas a gota de água, mas sim todo o conteúdo esquecido, deixado por tratar. E é infelizmente apenas quando o copo transborda que nos preocupamos em resolver aquilo que durante tanto tempo deixamos para trás. Não, o tempo não cura tudo. Acreditar nisso foi o meu maior erro. O tempo apenas permite que o trauma crie raízes e abrace o nosso futuro.

Sem o transbordar o copo, não estaria como estou neste momento. Permaneceria a pessoa assustada, pequena, pessimista, que durante toda a minha vida fui. E por isso, por muito difícil que tenha sido este último ano, não podia estar mais grata por tudo o que aconteceu.

Se estão na dúvida, este é o vosso sinal: procurem ajuda. 

Época de exames e as saudades do hospital

Estes dias têm sido passados em casa, na companhia dos resumos, dos powerpoints, e de uma playlist no Spotify que toca repetidamente na televisão da sala. Falta inspiração para escrever. 

Sinto falta do hospital. Da movimentação dos corredores, da bata que me fica grande, e do estetoscópio que teima em escorregar do meu pescoço inexperiente. É lá que me sinto bem, que me sinto com propósito. 

A única motivação que me guia nesta época de exames é saber que um estágio de verão me espera, assim como um próximo ano letivo em que todas as aulas se passam no Hospital. Não poderia pedir melhor.

Se vos interessa acompanhar a minha experiência no estágio, sigam-me no instagram: lá falarei mais sobre o assunto quando a época chegar :)

 

Vocês são lindas como os amores

Disse a senhora de cabelos brancos, com um sorriso de admiração no olhar.

E agarrava com carinho as nossas mãos, acariciava o nosso rosto. Falava como uma criança, e acredito que, em sua consciência, se considerasse uma.

Afirmou espalhar alegria na enfermaria, e não desconfiei, considerando que todos os profissionais de saúde que por ela passavam lhe atiravam beijos e palavras de amor.

Talvez nem tivesse consciência da doença. Mas que importa? Irradiava empatia, carinho, e a energia de quem espalhou afeto durante toda a sua vida. Num mundo de tristezas e tragédias, de desrespeitos e inimizades, é refrescante.

É a beleza do hospital. Conhecemos tantas personalidades, e em todas encontramos algo para admirar.

O senhor da cama quatro

Era como o meu avô.

Tinha um cuidado especial com as palavras, e uma atenção ao detalhe excecional ao contar histórias.

Falou-nos do carbúnculo, da sua aldeia, e da vida que levou. Procurava em nós uns ouvidos dispostos a escutar os tramas, as suas paixões, e a forma poética como sempre encarou a vida.

“A vida tem destes romances” dizia ele. E foi aí que descobri a alma de artista que nem o tempo nem a doença conseguiram escurecer ou apagar.

E é isto que amo naquilo que faço. Não só conhecer as doenças, mas principalmente conhecer as pessoas. As pessoas que não deixam de ser pessoas por se encontrarem numa enfermaria, e que não se deixam condenar por uma doença.

Dia Mundial do Lúpus - 10 de maio

Ontem foi o dia mundial do lúpus, e não poderia deixar de falar desta doença, não só pela importância que tem para mim, mas também pelo impacto que tem na vida das 5 milhões de pessoas que lidam com a mesma por todo o mundo.

Para quem não conhece, lúpus é uma doença que leva a uma resposta inflamatória contra os tecidos do doente, ou seja, uma doença auto-imune. 90% dos afetados são do sexo feminino e em idade fértil. Os sintomas mais comuns são a fadiga, dores articulares, febre inexplicável, e o tão típico vermelhão na face em forma de borboleta; e é por mimetizar tantas outras doenças que é de tão difícil diagnóstico. Além disto, pode afetar diversos órgãos e sistemas do nosso corpo, como a pele, as articulações, os rins, os pulmões, o coração, e até o sistema nervoso.

A minha jornada com o lúpus começou muito cedo. Numa noite, apenas com 4 anos, vi uma nódoa negra numa perna que me levou às urgências hospitalares. Nessa altura, fui diagnosticada com púrpura trombocitopenica idiopática - uma doença auto-imune que leva à destruição das minhas plaquetas sanguíneas (as responsáveis por formar um “tampão” e interromper o fluxo sanguíneo quando há alguma lesão). Desde então, fui seguida em consultas de rotina. Como cresci com este problema, nunca senti que me limitasse: aliás, não me lembro de viver sem ele. Apenas tinha de ter mais cuidado a brincar, para garantir que não me magoava.

Passado uns anos, comecei a ter algumas dores nas articulações, que colocaram a minha médica em alerta. Com alguns exames, foi fácil de entender que tinha, ou viria a desenvolver, lúpus. Com 10 anos de idade, não entendia grande coisa, muito menos as implicações deste diagnóstico. Porém, à medida que fui crescendo, fui me apercebendo da forma como esta doença podia afetar a minha qualidade de vida.

Nunca tive grandes complicações nem grandes sintomas. Apesar disso, ainda na escola, receei muito pelo futuro. Cada consulta médica era uma tortura: pensava sempre que seria daquela vez que receberia más notícias. É a incerteza que assusta. E quanto mais aprendi sobre a doença, mais atenta fiquei aos sintomas e, consequentemente, mais preocupada. Seria na próxima consulta que descobriria que teria de aumentar a medicação? Ou de fazer uma biópsia renal?

No entanto, o tempo e a maturidade ajudam. São os nossos melhores amigos. Apesar da sorte de ser diagnosticada cedo, e da ausência de sintomas e crises, tive de aprender a lidar mais tarde com a doença e, acima de tudo, com todo o stress e problemas que traz para a nossa vida.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Mais visitados

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub